Eu era apenas um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones, e recebi um super estimulo na adolescência: escrever uma coluna sobre televisão na revista TV-Guia. A ideia partiu do jornalista Mauricio Rabello, que batizou-a de Conversa de Telespectador - um olhar do público sobre TV. Foi uma experiência amadora, a primeira vez que assinei uma coluna – de Lima e Silva – e eu me senti... Inspiro-me nesta lembrança para abrir novo espaço no Bucaneiro, onde focaremos a dramaturgia sob a ótica de um espectador, não de um crítico...
DUPLA DO BARULHO

Essa a Globo acertou em cheio: o seriado “Tapas & beijos” é o melhor chantily da programação atual da emissora. Bem escrito, bem dirigido e com elenco bem escalado em sintonia total com o projeto de uma comédia de costumes passada em Copacabana, “a nossa Babel”, segundo o diretor Maurício Farias.
O grande barato da série é o encontro das atrizes Fernanda Torres e Andréa Beltrão nas peles de Fátima e Sueli, duas amigas que dividem o mesmo apê e trabalham como vendedoras da Juvenal Noivas, uma loja de vestidos de noiva. É um prazer assisti-las. Elas batem um bolão o tempo todo em jogo cênico de bons passes, uma levanta e a outra corta, se ajudando no brilho final. Gol! Contracenam de verdade e tornam verossímil qualquer loucura proposta , dando uma aula de comédia.
E elas estão bem cercadas por elenco de prima: Flavio Migliaccio (Chalita), um libanês viúvo hilário, Otávio Muller (Juvenal), o encucado dono da loja, Kiko Mascarenhas (Santo Antonio), o santo casamenteiro conselheiro de Sueli, Vladimir Brichta (Armane), o muambeiro grosseirão amante de Fátima e Érico Brás (Vladimir), grande revelação como o ex-marido de Sueli.
E... palmas para Fernanda e Andréa que elas merecem.
IDEAIS EM BAIXA

O SBT ousou ao levar para o gênero folhetim tema tão relevante como o período nefasto da ditadura militar de 1964. Projeto corajoso que Silvio Santos surpreendeu a todos, gregos e troianos. O autor Tiago Santiago, com fôlego, está encarando bem a empreitada, mas a meu ver o resultado final está desequilibrado, e justo nas forças centrais do antagonismo do enredo, quando vemos o poder dos militares mais bem definidos na trama.
Talvez tenha sido por aí o motivo da novela ter assustado o público da tv aberta, especialmente com as cenas violentas de torturas e perseguições políticas. Os ideais dos jovens que caminharam na contramão da repressão estão pouco enfatizados, desnivelados e até ingênuos. Não tem brilho nos olhos desses jovens, ou cenas que retratem o espírito anárquico e justiceiro da juventude revolucionária da época. O elenco jovem está sem raça, sem tesão. Com exceção de Cacá Rosset, Lúcia Veríssimo e Cláudio Cavalcante, o elenco restante parece tão revolucionário quanto uma bala de jujuba. Alguns até com atuações over-acting.
No entanto, “Amor e revolução” merece respeito e atenção. É uma produção digna, bem acabada, ainda que os figurinos de época pareçam inadequados e a produção de arte também fora do tempo. O score musical também é confuso, com temas criados em outra época, como as músicas de Raul Seixas e outros.
Reinaldo Gonzaga, Isadora Ribeiro, Nicole Puzzi, Glauce Graeb e Antonio Petrin garantem bons momentos na novela, bem apoiados pela direção do experiente Reynaldo Boury e a produção executiva do craque Sérgio Madureira.
PSICOPATAS E BABACAS

Acordei anteontem com o comentário do Arnaldo Jabor na rádio CBN sobre a novela “Insensato coração” de Gilberto Braga e Ricardo Linhares. Motivado pelas últimas semanas de muita ação das cenas apresentadas, em que o foco da corrupção do personagem Cortez (Hérson Capri) e as demonizações do vilão Léo (Gabriel Braga Nunes) sobressaíram-se, Jabor falou com entusiasmo deste momento em que a trama atinge seu clímax. Enfatizou a história de psicopatas de um lado e de babacas do outro, tecendo elogios à dramaturgia de Braga.
Achei uma grande sacada do Jabor, por que se você observar bem o universo da novela ele está recheado de canalhas, a maioria não presta, e também de ingênuas criaturas, algumas simplistas ao extremo, e outras querendo se dar bem, defensoras da lei de Gérson. O estado mental patológico caracterizado por desvios, assim como o comportamento tolo e boboca (ou babaca) dos personagens estão misturados em todos os núcleos da trama. Acho que existe uma terceira vertente, que é a denúncia do preconceito e da intolerância.
Gilberto Braga tem a maestria de manejar com talento esses universos, já abordados em outras obras suas. O desenvolvimento dos conflitos está nas suas mãos e de seu parceiro Linhares. Nós, telespectadores, vibramos quando assistimos no espelho mágico da telinha um corrupto sendo preso e desmascarado, como também a retratação dos vilões que nos cercam.
Uma Gloria Pires (Norma) intensa, em plena maturidade como intérprete, nos encanta até em sua vingança. E como está bela, mama mia. A humanidade que Débora Secco veste a deliciosa Natalie também chama a atenção, e igualmente merecem destaques as atuações de Antonio Fagundes (Raul), Leonardo Miggiorin (Roni), Maria Clara Gueiros (Bibi), Ricardo Tozzi (Douglas), Isabela Garcia (Daisy), Camila Pitanga (Cartol) ,Juliano Cazarré (Isamel) e... Dame Natália Thimberg (Vitória).