A Comissão Nacional da Verdade, a comissão
brasileira que investiga violações de direitos humanos ocorridas no Brasil entre
1946 e 1988, e que foca principalmente os
fatos ocorridos no regime militar (1964-1985), o golpe de 64, quando, segundo a
CNV, pelo menos 50 mil pessoas foram presas no primeiro ano de existência, foi
prorrogada até o final deste ano.
A verdade, nada mais do que a verdade, em seu estado
puro, está sendo restabelecida. Violações dos direitos humanos em lacunas
significativas estão sendo preenchidas nestes dois anos em ação, como a
identificação dos responsáveis nos casos Vladimir Herzog, Rubens Paiva, Stuart
Angel e tantos outros, a localização dos
restos mortais dos guerrilheiros executados no Araguaia, a violência do regime
autoritário contra os povos indígenas até o esclarecimento das mortes dos
presidentes João Goulart e Juscelino Kubitschek, entre outros fatos.
Eu e minha geração estamos atentos e fortes neste
momento de resgate da nossa história, momento histórico, quando acontece o
cinquentenário do golpe de 64. Foi osso, a gente sabe. Os ares progressistas e
democráticos vividos nos últimos tempos no país possibilitam vigorar uma
espécie de ‘lei do retorno’, tipo reabrir uma ferida não cicatrizada. Ou, em
síntese, fazer justiça.
Ao instalar a CNV em 2012, a presidenta Dilma Rousseff, ativista política, emocionou-se pra valer, e destacou em seu discurso que as
investigações não serão movidas pelo ódio ou revanchismo, e parafraseou Galileu
Galilei lembrando que
“a força pode
esconder a verdade, a tirania pode impedi-la de circular livremente, o medo
pode adiá-la, mas o tempo acaba por traze-la a luz. Hoje, esse tempo chegou.”
Composta por sete membros, Gilson Dipp,. José Carlos
Dias, José Paulo Cavalcanti Filho, Maria Rita Kehl, Paulo Sergio Pinheiro, Pedro
Dallari e Rosa Cardoso, esta, advogada defensora da presidenta Dilma na
ditadura, a comissão está a pleno vapor.
A doutora Cardoso, que define os crimes da ditadura
como ‘fábrica de mentiras instalada há 50 anos com a derrubada do presidente
João Goulart’, em entrevista à Carta Maior, ressaltou que o golpe ‘foi
realizado pela elite militar, não por todos os militares’, declarando:
“Quero
dizer que até hoje as Forças Armadas devem um pedido de perdão à sociedade
brasileira, com que estariam assumindo uma posição civilizada e democrática,
que é, afinal de contas, o que se espera dos militares no século 21...Assim
como a Rede Globo, respondendo a motivos diversos e oportunistas, inclusive a
razões de mercado, fez uma autocrítica (sobre sua cumplicidade com os militares),
é preciso que as Forças Armadas façam uma autocrítica política sobre seu
comportamento.”
Em 1964, eu adolescente, me lembro daquele
burburinho brabo à nossa volta, o medo plantado nas cabeças da classe média, daqueles comunistas que ameaçavam o país, e os salvadores militares...Em 1968, aos 18 anos, estava na TV Continental
ao lado de uma turma corajosa e inteligente, todos comandados por Reynaldo
Jardim e Ana Arruda. Era a galera do jornal O Sol, que ao sabor dos tempos
quentes passou a se chamar Poder Jovem.
Eu e Theresa Jorge, a Catito
Apresentávamos diariamente um telejornal-cabeça,
Poder Jovem, dirigido aos jovens, ao som do Caetano:
"Toda essa gente se engana
ou então finge que não vê que eu nasci pra ser o Superbacana”...
Apesar da
presença de um censor no estúdio, passávamos informações de maneira
velada junto à efervescência cultural do momento e até anunciávamos passeatas
com muita cautela. Mas muita coisa era proibida e censurada.
Catito, Martha, Ana, Zé Antonio, Monica, Zezé,
Jorge, Vera, Geísa, Analuce, João Rodolfo, Sá, Ribamar, Adolfo, Celinha, Eva,
Poerner, Rosiska, Henfil, Tetê, Gontijo e tantos outros que não lembro agora,
habitávamos o jardim do Reynaldo, nosso Jardineiro-Poeta,
mestre e guru.
A minha praia era o teatro, então levava
entrevistados que estavam em cartaz no Rio naquele momento. Lembro de ter entrevistado a Neila Tavares e a turma
do Mini-Teatro, a Eugenia Álvaro Moreyra e a turma do Tablado e conseguido a
proeza, uma vitória para mim, de levar ao programa Tonia Carrero, a atriz
emblemática do movimento cultural que lutou contra a Censura, ela que estava
fazendo grande sucesso com “Navalha na carne” de Plínio Marcos, ao lado de
Emiliano Queiroz e Nelson Xavier. O espetáculo de Fauzi Arap era um soco na boca do estômago.
O censor de estúdio vetou os assuntos abordados nas
perguntas previamente produzidas. Não me
lembro quem, Zé Antonio ou Rofolfo (?), a cinco minutos do programa entrar no
ar, teve uma genial ideia: a entrevista seria muda, nós perguntávamos e ela só
faria gestos em mímica em resposta. Tonia topou e arrasou. Ficou no ar quase quinze minutos
“respondendo” à apimentadas perguntas muito bem elaboradas.
Foi um sucesso! Acabou o programa, sumimos com
Tonia, embarcando-a num taxi pois os ânimos esquentaram... E como de praxe,
entramos nas kombis de reportagem da Continental que grafava seu imenso 9 nas laterais para
a passeata das seis...Com o carro de reportagem, conseguíamos percorrer todas
as áreas da Presidente Vargas, e sempre dávamos caronas para dezenas de manifestantes, desde que...se abaixassem para
não serem vistos.

Em 2006, Martha Alencar e Tetê Moraes produziram e dirigiram o documentário “O Sol – Caminhando contra o
vento” (à venda em DVD), contando muitas histórias dos inesquecíveis anos de
chumbo que vivemos na trincheira do jornalismo alternativo, com as presenças
luxuosas de guerreiros top de linha, tipo Vladimir Palmeira, Ittala Nandi, Luiz Carlos Maciel, Marcio Moreira Alves, Tonia Carrero, Ruy Castro, Ziraldo, Chico Buarque, Gil, Gilberto Braga, Hugo Carvana,
Betty Faria, Fernando Gabeira, Carlos Heitor Cony e tantos outros... Resultou em documento
precioso de boa fatia da história da ditadura militar. Imperdível para quem não
viu.
ZUZU E STUART ANGEL
Os 50 anos do golpe que acontecem agora, dia 1 de abril, despertam manifestações de diversas áreas: do Tortura
Nunca Mais, dos advogados dos presos políticos, com Eny Moreira à frente, o
lançamento do story board do filme “Primeiro de Abril, Brasil” da Maria Leticia na Casa Laura Alvim (Ipanema),
passeata de professores que homenagearão Henriette Amado, Zé Celso Martinez programando uma vigília no Oficina e tantas e tantas
outras...Um gosto amargo de festa.
Em São Paulo, no Itaú Cultural, será inaugurada dia primeiro
de abril uma mega exposição de Zuzu Angel, a mais conhecida estilista brasileira e um
ícone na luta pelos desaparecidos políticos na ditadura militar, à frente do
desaparecimento de seu filho, o ativista Stuart Angel.
A Mostra Retrospectiva da história da inesquecível
Zuzu Angel vai expor croquis, estampas criadas pela estilista, fotografias e
até a carta que escreveu em 1976 ao então Secretário-geral de Estado dos EUA,
Henry Kissinger, sobre os desaparecidos. Nos quatro andares do Itaú Cultural da
Avenida Paulista acontecerão desfiles de réplicas das suas criações e exibição
do rico acervo do Instituto Zuzu Angel, que
preserva a sua obra e é comandado por sua filha, a incansável Hildegard Angel,
atriz do teatro de resistência do Oficina e jornalista prestigiada.