
O lado ator de JORGE FERNANDO estava meio adormecido pela exuberante carreira de diretor de shows, peças, novelas e seriados rolada nos últimos 30 anos em sua vida. É verdade que ele atuou no espetáculo solo “Boom”com bastante sucesso, e volta e meia faz participações na tv e no cinema, mas protagonizar um projeto na Globo, encabeçando uma nova grade de programação, é uma mudança de paradigma, no mínimo.
Quando o diretor José Alvarenga Jr sugeriu convidá-lo para estrelar o seriado “Macho- Man” na pele do cabeleireiro Zuzu, ele não pensou duas vezes. Enquanto dirigia os últimos capítulos de “Ti-Ti-Ti”, freqüentou a sala de maquiagem da Globo e aprendeu rapidinho a fazer escova e pentear. Nem bem o convite estava oficializado, e Jorginho já estava se metamorfoseando. Em seguida entrou no restaurante da emissora e bradou, cantarolando para Alvarenga:”vou fazer, vou fazer o macho, macho, man...”

O seriado “Macho-Man”, escrito pela dupla Fernanda Young e Alexandre Machado, estreou em 9 de abril último, e assumiu a liderança de audiência na primeira noite. O mote é genial: Zuzu, cabeleireiro gay assumidíssimo, dançando freneticamente numa boate, leva uma sapatada na cabeça e...perde os sentidos. Quando desperta, descobre que algo mudou em sua vida, ele passa a ter tesão em mulher.
Ora, isso é um prato feito para um ator deitar e rolar. E é o que está acontecendo. Jorginho está brilhando, à vontade, botando pra fora o talento que tem demonstrado em seus trabalhos como diretor. Expressionista, poderoso em cena e esbanjando aquela alegria que contagia a todos que o cercam, ele está apoiado por um super elenco, a começar pela ótima Marisa Orth, vivendo a atendente Valéria, a amiga que ajuda Zuzu como se portar como um convicto hétero pegador de mulheres.
Young e Machado, craques em sitcomédia desde “Os Normais”, construíram pano de fundo muito bem armado com tipos hilariantes no universo dos salões de beleza, defendidos por excelentes atores até então desconhecidos do grande público: o paranóico Frederic (Roney Faccini), dono do salão, Nikita (Natália Klein), a recepcionista gótica, a assistente Tifany (Luanna Jimenes) e a cliente Vendetta (Rita Elmor), uma ex-modelo decadente e alcóolatra . Todos aprontam muito o tempo todo, dirigidos por José Alvarenga com esmero.

P E R F I L - Jorge,o carioca (!) batalha na vida artística desde os 17 anos de idade, quando começou no teatro amador fazendo “Zôo-History”, de Albee, abiscoitando prêmios de revelação. Viajou para Paris com o grupo Dzi Croquettes estrelando o show Romance, em 1978 estreou na telinha como ator em “Ciranda, Cirandinha” de Daniel Filho e Euclydes Marinho, atuando em seguida nas novelas “Pai herói e “Água Viva”. Guiado por seu mestre Roberto Talma começou a dirigir em “Coração alado”. Logo, Jorge conquistou o posto de diretor absoluto de diversas novelas e minisseries de sucesso. Nascia um diretor competente e criativo, comprovado especialmente nas realizações “Que rei sou eu?”, “Cambalacho”, “Guerra dos sexos”, “Deus nos acuda”, “Zazá”, “A próxima vítima” e recentemente no remake de “Ti-Ti-Ti”, entre outras.
Tive o privilégio de trabalhar com ele diversas vezes no teatro, na tv e em comerciais. Em sua estréia como diretor de teatro, 1980, participei da montagem “As 1001 encarnações de Pompeu Loredo” de autoria dos grandes Mauro Rasi e Vicente Pereira. A encenação, que virou um clássico do teatro besteirol, revelou o diretor espetaculoso que se tornaria a seguir.

Amoroso e amigo leal, JORGE FERNANDO tem um jeito mago de ser, está sempre agindo com emoção e autenticidade. Acredito que ele mudou o comportamento dos diretores de televisão, alguns carrancudos, autoritários, mascarados ou cheios de poder... Jorginho no set é alegria geral. E sabe impor respeito com naturalidade. Atores, equipe e técnicos vibram com a liderança inata e carismática. E tudo resulta com brilho.
Seu alicerce vem da formação afetiva da família. Sua mãe, Hilda Rebello, atriz lançada por ele aos 65 anos, entrou para o livro dos recordes, o Guiness. Espiritualizada, talentosa e doce, Hilda é um talismã em seus trabalhos, o plus a mais que todo diretor necessita para sua harmonia pessoal.
Pelo sucesso que “Macho Man” está alcançando, uma segunda temporada já está programada na disputada grade da Globo. No momento atual que a causa homossexual está em pauta, conquistando espaço e respeito no comportamento geral, o seriado traz leveza e bom humor ao tema, com refinamento e sem qualquer vulgaridade.
E é JORGE FERNANDO o principal foco do enredo, dando vida ao personagem Zuzu como um desenho animado vivo, expressivo, perplexo e ao mesmo tempo humano. O resultado está no ar, um milk-shake delicioso e inteligente.
Salve o grande Jorginho!