LEILA DINIZ, “essa menina livre que Deus chamou”, soma neste 2012 quarenta anos que saiu de cena. Em 14 e junho de 1972, o Brasil, em meio a tantas turbulências, recebeu a pior noticia do ano: o avião que trazia a atriz de Nova Délhi (Índia) explodiu no ar. Com 27 anos
estrelou-se, e firmou brilho no céu, de onde nunca mais saiu! Não tem como olhar o firmamento e não visualizar seu sorriso escancarado. Ela é a estrela mais reluzente, que reflete em todos nós, especialmente no comportamento feminino que ajudou a revolucionar, a liberdade da sua cuca, o corpo desavergonhado e o sol da alegria que contagia cada sorriso de mulher...

A Rainha das Vedetes de Ipanema de 1970 merecia a capa do Jornal de Ipanema. Mário Peixoto me deu a matéria principal da virada da década, e lá fui eu fotografar Leila nas areias escaldantes do Castelinho para o lançamento da revista “Tem Banana na Banda”, sua mais importante incursão nos palcos. Como promoter do espetáculo, promovi a eleição da Rainha das Vedetes de Ipanema, para apresentar o elenco à imprensa e convidados. Leila, Gladys, Aninha Magalhães, Aparecida, Zeli, Regina Bocão e Luciene desfilaram, enquanto Norma Suely e Albino Pinheiro, os mestres sem nenhuma cerimônia, apresentavam o evento com fundo musical da Equipe Mercado de Diana Stull e Pedro Sayad. O Poeira de Ipanema, hoje o elegante restô Terzetto, inchou de gente. Parou a General Osório, claro. Virgina Lane, a Vedete do Brasil, coroou Leila. Que zona, *!#*¨¨*” !

Boa noite, minha gente, nossa revista espetacular, com muita pimenta e muito sal vai começar, boooa noite !...
Assim Leila começava a revista
ipanemenha que trouxe de volta o gênero teatro de revista para a zona sul carioca com molho tropicalista,
misturando plumas, abacaxis e bananas em luxuosa produção que marcou época. E como! Paralelamente, rolou a bombástica entrevista que ela concedeu ao semanário O Pasquim, que abalou o país em plena ditadura militar. No palco, sob ferrenha perseguição da censura, era difícil segurar sua verve de vedete curtidora, e os palavrões eram disfarçados – em vez de caceta, cáceta, por aí –

...Tem muita banana na banda pra quem quizer comprar, tem só banda sem banana pra quem quizer olhar...E tem banana na banda pra quem olhar e goooooostar! Mas Leila teimava em cantar: “...pra quem olhar e gooooozar!” Anárquica e debochada, era uma delicia em cena, super à vontade, linda, gostosa, na sua praia. Ao lado de Tânia Scher, Norma Suely e Valentina Godoy formava o time das vedetes principais, cercada de mulatas, boys, conjunto musical, atrações e os comediantes Nestor Montemar e Ary Fontoura.
Os quadros levavam assinaturas célebres - Millor Fernandes, Oduvaldo Vianna Filho, Luiz Carlos Maciel, José Wilker, Enio Gonçalves e Kleber Santos, que também dirigia o espetáculo.

Meninos, eu vi. Eu estava na mesa da Gôndola quando Nestor Montemar e Luiz Fernando Goulart acionaram a ideia. Minutos depois entrava no famoso restaurante dos artistas, o Kleber. Sentou na mesa e ciente da empreitada, topou dirigir. Dois dias depois, acompanhei Nestor na praia de Ipanema - era o lugar certo de encontrar Leila – e ela aceitou o convite de Nestor na hora.

Luiz Fernando vendeu a ideia para o amigo, o empresário Marco Aurélio Moreira Leite, uma das figuras mais doces e brilhantes que já conheci. Uma mega produção foi levantada pelos dois, claro, tudo aos pés da musa de Ipanema.

Leila era afinada e graciosa no canto, cantava Lola de Lamartine com Nestor que era uma graça. Nos quadros de humor tirava partido, e mostrava seu lado comediante bem afiado, fosse como uma portuguesinha sacana que acompanhava Cabral (Ary Fontoura) na descoberta do Brasil, ou nas safadas Composições infantis, escritas por Millor, onde aparecia “inocentemente” chupando pirulito ao lado de Nestor. Dançava também sensualmente um mambo frenético com os boys Paulo Taboada e Silvio Correia Lima (depois Ivan Sena) que surpreendia e agradava geral. Seu namorado "Cachorro" entrou no mambo à certa altura.

As mulatas foram escolhidas pelo expert Albino Pinheiro, e recebeu o título folclórico de As Albinetes... Na retaguarda, Guilherme Vaz assinava as ótimas músicas e a direção musical, Suzana Braga na coreografia brincava com os clichês da revista e Luiz Carlos Ripper estreava como cenógrafo e figurinista, produzindo verdadeiro impacto visual com o vestuário super criativo e colorido, assim como os telões dos cenários emoldurados pelo mar de Ipanema.

Ela é eterna, e o amigo Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, eternizou sua vida no celulóide, através do filme “Leila Diniz”, umas das maiores bilheterias brasileiras de 1987. No animado restaurante Madrugada, do chef Rodolfo Bottino, dei a minha sujesta para ele: a Leila ideal é Louise Cardoso. Marieta Severo falou o mesmo. E Louise, com a vibrante direção de Bigode, criou um de seus melhores trabalhos como atriz, abiscoitando prêmios e aplausos unânimes, assim como o filme.

O jornalista Joaquim Ferreira dos Santos publicou, em 2008, a biografia de Leila para a Companhia das Letras – Perfis brasileiros, Uma revolução na praia – vendendo mais que banana! (na banda, claro) A caprichada edição traz aquele texto fluente, gostoso de ler, onde Santos mostra o quanto ela estava à frente do seu tempo, mesmo sem querer levantar bandeira, como afirmava – “A única bandeira que eu quero levantar é a da Portela!”
...Essa bruxa solta pela cidade não vai partir, não vai morrer, vai viver no amor de cada mulher
Em 1982, em parceria com o querido e saudoso Candido José Mendes de Almeida, criamos o Festival “Leila Diniz, dez anos depois” no Centro Cultural Candido Mendes. Filmes, debates e uma super exposição trouxeram de volta em retrospectiva sua breve mas intensa vida e obra.
Taiguara, poeta à flor da pele, mais inspirado que nunca, compôs “Memória Livre de Leila” que Claudia, tão emocionada quanto o compositor, gravou. É de arrepiar os pentelhos, como diria Leila.
E o BUCANEIRO tem a honra de apresentar a homenagem de Taiguara (TV Manchete,1989) para deleite de todos voces nestes 40 anos de muuuita saudade. Oba!