
O autor define a obra como “uma comédia romântica que homenageia o gênero telenovela desde os folhetins mexicanos aos brasileiros”. Acho que sua inspiração passeia além dos preceitos do gênero, e corre solta pela crônica de comportamento com pitadas das comédias carnavalescas da Atlântida e do chamado teatro besteirol.
“Um mundo melhor – a Comédia da Tolerância”, era o titulo original da novela, o que leva a gente a acreditar tratar-se de uma história que confronta personagens indulgentes e intransigentes, a serviço do humor e da crítica social. Uma galeria de personagens forma a rica tipologia humana de arquétipos. E é isso que temos assistido em “Aquele beijo” nas divertidas tramas e situações boladas por Falabella e sua afinada equipe de colaboradores: o experiente Luiz Carlos Góes, Antonia Pellegrino, Flavio Marinho e Alessandra Poggi.
Um lance que dá um charme especial à novela, é a voz de Falabella fazendo comentários contextualizados de determinadas cenas. Às vezes são citações de Clarice Lispector ou Pablo Neruda. Isso me lembra Nelson Rodrigues, que comentava cenas e situações de “A vida como ela é”, em seriado na saudosa TV Rio.Dá uma marca incrível à obra.

Um dos grandes méritos da realização está na escolha apurada do elenco, encabeçado por Marília Pêra na pele de Maruscka, poderosa dona de uma loja de luxo que se vê em apuros com a Receita Federal. Marilia está fantástica, usando e abusando de matizes para enriquecer a personagem. Contracenando com a admirável Jacqueline Laurence, sua mãe Mirta, as duas têm proporcionado momentos de alta comédia, onde parecem matar saudades da temporada teatral de “Síndica, qual é a tua?” de Góes, - sucesso do teatro carioca, onde viveram respectivamente, Miss Gilda e a Síndica.

O cast tem uma alquimia incrível, e reúne atores de diversas correntes: os jovens cheios de talento e preparo, e atores cascudos, todos convivendo em completa sintonia. A novela inova também com a presença de diversos atores negros fazendo personagens importantes na trama. E os nomes das personagens também têm um toque de originalidade genial: Íntima(Elisangela), Locanda (Stela Miranda), Cabo Rusty (Jorge Maya), Ana Girafa (Luis Salém), Grace Kelly (Leilah Moreno), Eveva (Maria Gladys), Joselito (Bruno Garcia) e Belezinha (Bruna Marquezine), entre outros. Dificil falar de todos os atores e personagens, eles são muitos, mas seguem alguns destaques deste recorte afetivo.

Uma das tramas mais divertidas de “Aquele beijo” rola na casa de Felizardo, um paraibano enfezado que está proporcionando a Diogo Vilela deitar e rolar literalmente. Sua mulher é Locanda, entregue à uma Stela Miranda possessa, delirante, a cara dela. Os dois são im-pa-gá-veis.

Atores sumidos da televisão foram pinçados por Falabella para seu casting, como Patrícia Bueno, que está brilhando como a tolerante Otília, diretora do orfanato Lar da Mão Aberta , sempre em confronto com a intransigente irmã Olga (Maria Zilda Bethlem). Outra grande atriz, tarimbada e super talentosa, e que pouco dá as caras na telinha é Telma Reston. Ela está à vontade como a golpista Violante, sempre envolvida em extorsões e disfarces hilários. Faz lembrar em momentos uma desaforada Violeta Ferraz de outros carnavais.

A abordagem de uma personagem travesti é algo completamente inédito na teledramaturgia. A Ana Girafa, vivida (o) com sensibilidade por Luiz Salém, cai como uma luva quando o assunto é tolerância. Salém é cascudo no humor, mas tem dado uma dimensão humana e dramática à uma personagem que poderia ser um estereótipo e não é.

Dá um prazer especial apreciar a renovação de elenco que a novela tem apresentado. Ótimos atores do teatro e do cinema, que pouco são vistos na telinha, têm feito participações interessantes, como Rubens Araújo, ator de longa carreira teatral e de excelentes trabalhos nos palcos brasileiros, que apareceu muito bem na pele de Jorge, um falso amante de Locanda. Maria Lucia Dahl também está no ar como Lena, uma governanta um tanto o quanto misteriosa. Dahl e Araújo são duas jóias raras que dão brilho especial em qualquer cena.

“Aquele beijo” está refrescando o horário das sete com um tipo de humor inteligente a serviço de uma ideia bem sacada e super pertinente. A realização é de primeira, com Cininha de Paula na direção geral e Leandro Néri, Tande Bressane e Marcelo Zambelli co-dirigindo. A direção de imagem é de Rico Rondelli.
Tudo sob a supervisão de Roberto Talma, um dos profissionais mais inovadores da televisão. É de Talma a ideia de juntar Xuxa e Daniel Jobim cantando a música-tema, nada menos que “Garota de Ipanema” em leitura pop. Show.