
pôde causar terremotos...
RAUL SEIXAS (1945-1989), contestador, revolucionário, desaforado e místico, é considerado o pai do rock brasileiro. Tive o privilégio de acompanhar seu surgimento desde quando ainda era moleque. Maravilhoso!
“Eu nunca cometo pequenos erros
Enquanto eu posso causar terremotos,
E das tempestades já não tenho medo,
Acordo mais cedo!
...Eu sou o Moleque Maravilhoso
Num certo sentido
Sou mais perigoso...”

Rapazinho ainda, pirol geral
Partiu pra carreira-solo, compondo um rock que namorava o baião, gênero que escutou direto na adolescência da música nordestina de Luiz Gonzaga, sua grande influencia. “Let me sing, Let Me sing” (em parceria com sua primeira mulher, Edith Nadine Seixas) arrepiou o Festival Internacional da Canção de 1972, chegando às finalistas. O impacto da presença dele no palco, causou!

Seu primeiro grande sucesso nas paradas da época foi “Ouro de tolo”, lançado no líder de audiência programa de Flávio Cavalcante na TV Tupi. Enquanto ele cantava no auditório da Urca, Flávio acompanhava com a letra na mão, e comentava entusiasmado o surgimento de um grande letrista.
“Eu que não me sento no trono de um apartamento
Com a boca escancarada cheia de dentes
Esperando a morte chegar...
Porque longe das cercas embandeiradas
Que separam quintais
No cumo calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora de um disco voador”

Vidrado em Filosofia, Psicologia, História, Literatura e Latim, Raulzito misturava tudo em pessoalíssimo liquidificador, produzindo rocks, baladas, boleros e baiões geniais. É impossível listar uma obra tão rica e efervescente, pois foram diversos os hits que conquistou nos seus 21 discos gravados e muito bem aceitos. “ Gitã” vendeu 600 mil discos, cristalizando a canção título como seu principal escudo místico.
“Eu!
Mas eu sou o amargo da língua,
A mãe, o pai, o avô
O filho que ainda não veio
O início, o fim e o meio”

Inspirando-se nestes versos, o cineasta Walter Carvalho dirigiu um documentário sobre ele, que estreia nas telas brasileiras nesta semana: “Raul, o início, o fim e o meio”. O filme traça a carreira na infância baiana quando conheceu Elvis Presley até sua morte aos 44 anos. Carvalho resumiu 400 horas de filmagens a um filme de duas horas com mais de 90 entrevistas, entre amigos, parentes, fãs e seu parceiro mais ilustre, Paulo Coelho:“Tem gente que vem pra passar rápido, Raul é um meteoro”, define Carvalho.

Debochado até a alma, causou ira nos militares da época quando se apresentou na festa do Concurso de Miss Brasil em Brasília, 1974.
Fugindo das óbvias citações musicais, deixo a “galera da geral” com um rock memorável para mim, “Moleque maravilhoso”, um dos que mais gosto do seu caudaloso baú. Sem dúvida, ele não cometeu pequenos erros, causou mesmo tremendos terremotos. E virou mito, o que não é pra qualquer um. Mas um pouco antes disso, confesso que vivi.
Raul direcionou minha juventude, me dando toques preciosos que nunca nunca esqueci.
“...Com o meu bodoque sempre no pescoço
Eu exijo o meu osso !”