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SÉRGIO BRITTO partiu para novos céus estrelados.

Eu conheci SÉRGIO BRITTO através do ator e produtor Nestor Montemar, meu amigo inesquecível, nos anos 1970. Passei a freqüentar seu apartamento na Santa Clara, Copacabana. SÉRGIO gostava muito de Nestor, ele estimulava e avalizava suas ideias arrojadas, mas sempre com altas ponderações que traziam o amigo pra real. Eram noites geniais que varavam a madrugada, entre gargalhadas, jantares, drinks e planos. Me lembro dele dando gargalhadas, entre piadas, projetos futuros e comentários atualizados do mundo teatral de então.
Foi saboreando de perto esse convívio que me levou a convidá-lo para dirigir em 1971 uma montagem infanto-juvenil de “Romeu e Julieta”, que Rubem Rocha Filho escreveu especialmente, com músicas da Banda Antiqua. Topou na hora, e eu me aventurei pela primeira vez em produção (com apoio financeiro de meu pai), que resultou em montagem que estreou o horário infantil, em produção de fora, do cultuado Teatro Ipanema. Fabiola Fraccaroli, Chico Ozanan, Luiz Armando Queiroz, Marco Nanini, Rinaldo Genes, André Valli e José Steinberg eram os atores principais, além de Nice Rissoni e os músicos da Banda Antiqua, os jovens de Verona. Foi o máximo. Sua direção calcada na commedia dell’arte foi muito elogiada.

Mas... muitos anos antes, o jovem SÉRGIO BRITTO experimentou o Teatro do Estudante quando cursava Medicina. Um divisor de águas aconteceu: ser médico ou homem de teatro? Quando Paschoal Carlos Magno, em 1948, lhe apontou um teste para a montagem de “Hamlet”, protagonizada por Sérgio Cardoso e dirigida por Hoffmann Harnisch, seu coração balançou, e ele optou pela carreira artística. Assumiu o papel de Horácio na peça, o melhor amigo do príncipe dinamarquês, e na vida real como melhor amigo de Cardoso. Em sua biografia “O teatro & eu” (Tinta Negra Bazar Editorial), lançada no ano passado, dedicou grande espaço para narrar este momento:
Trecho: “Sérgio fazia um Hamlet romântico, histérico, um perigo em cena...Na cena final, Sérgio-Hamlet me pegava pelo pescoço e me derrubava escada abaixo. Certo dia, ele veio terrível, e quando me pegou, arrancou minha peruca e a atirou escada abaixo. A minha queda foi antecipada pela queda da peruca, era a peruca caindo e eu também. A platéia viu e se divertiu...

Presença viva na história de importantes Grupos e Companhias de teatro, como o Teatro do Estudante, Teatro dos Doze, Teatro Maria Della Costa, Teatro de Arena, Teatro dos Sete, Teatro Senac, Teatro dos Quatro, Teatro Delfim e os teatros do Centro Cultural Banco do Brasil, participou de grandes espetáculos, impossível de resumir. Entre eles, integrou o primeiro elenco profissional do Teatro de Arena (1953) em “Esta Noite é Nossa”, direção de José Renato ; com Maria Della Costa e Sandro Poloni, atuou em cinco montagens dirigidas por Giani Ratto, entre elas”O Canto da Cotovia” e “Mirandolina”, ambas estreladas por Maria.

No TBC, sob a direção de Maurice Vaneau fez “A Casa de Chá do luar de Agosto” em 1956, e tres anos depois, ao lado de Ratto, Fernanda Montenegro, Fernando Torres e Ítalo Rossi, criou o Teatro dos Sete com o grande sucesso da década: “ O Mambembe”, em temporadas nos Teatros Municipal e Copacabana.

Na pioneira TV Tupi carioca, em plena era JK, 1956 - lançou o mais famoso teleteatro de todos os tempos, o "Grande Teatro Tupi". O programa tornou-se capítulo especial na história da teledramaturgia, com 450 programas exibidos – a maioria ao vivo – por onde desfilou um repertório inigualável de autores nacionais e estrangeiros, como Goethe, Ibsen, Thorton Wilder, Pirandello, Tchecov, Machado de Assis e Nelson Rodrigues.

Lancei no início deste ano que se finda, o livro “TV Tupi do Rio de Janeiro, uma Viagem Afetiva” (Imprensa Oficial do Estado SP) pela Coleção Aplauso. Fui entrevistá-lo em sua casa em Santa Teresa, isso depois de muito insistir porque ele não parava. Recebeu-me às onze da noite, depois de um dia exaustivo de ralação.
Quando começamos a gravar o depoimento, o entusiasmo pelo assunto (adorava lembrar essa época) provocou-lhe um frescor tal que eu pensava: que pique, cara! – e ele falava, ria, recordava, viajava na maionese ...
Trecho: “A Fernanda acha que o Grande Teatro foi a nossa escola de teatro. Na Europa eles avaliam a capacidade do ator por intermédio do teatro de repertório, e montam dez peças por ano. Nós fizemos isso, a Fernanda diz que o teatro que não tivemos para evoluir, tivemos no repertório do programa. Ela está certa.”

“O encontro de duas personalidades assemelha-se ao contato de duas substancias químicas, se alguma reação ocorre, ambos sofrem uma transformação.” (JUNG)
Irmã por opção e pele, Fernanda Montenegro acompanhou SÉRGIO em toda a sua trajetória, sua história de vida se entrelaça com a dele. Direto. Em São Paulo na Companhia de Maria Della Costa a amizade se fixou, acompanhada de perto por Fernando Torres e Ítalo Rossi. Quando os quatro, juntamente com Zilka Salaberry, Nathália Timberg, Flavio Rangel, Aldo de Maio e Manoel Carlos estrearam o programa na Tupi, colaram de vez. A dupla imprimiu mais que uma marca de qualidade, mas um casal (almas gêmeas, talvez) muito muito carismático. No teatro, eles formaram par em inúmeros espetáculos, desde “O Mambembe” (1959) até “Volta do lar” (1967), como aparecem na foto acima, em performances de arrepiar. Só pra destacar dois...

Momento 1: “Quatro Vezes Beckett (1985), direção de Gerald Thomas, reuniu trio possesso: com Ítalo Rossi, brilhou ao lado de Rubens Correa. Pela foto dá pra sentir...

Momento 2: Ao lado de Nathália Timberg também formou um casal muito afinado em diversos momentos do Grande Teatro e nas longas temporadas de “Meu Querido Mentiroso”.

Momento 3: Nos anos de 2007/2008, celebrando os 60 anos de carreira, causou impacto por sua interpretação como o famoso psiquiatra suíço, em “Jung e eu” de Domingos de Oliveira e Giselle Kozovski. Questionador e ávido por conhecimento, encantou-se de tal maneira com Jung, valendo quase uma incorporação em cena, que declarou na época uma total identificação com a psicologia junguiana.
“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas uma outra alma humana.”(Carl Gustav Jung)

No Premio Sesc Rio de 2010, SÉRGIO BRITTO foi o homenageado especial. Ficou muito emocionado ao receber os aplausos da platéia do Teatro Ginástico, de pé, durante longos minutos. Um vídeo foi exibido, narrado por José Wilker, que começava assim:
Fomentar, semear, regar, sempre com muita paixão. Talvez essa seja a fórmula de mais de 65 anos na carreira. SÉRGIO BRITTO, um exemplo a ser seguido.

Com vida e obra intensa e longeva, SÉRGIO BRITTO era acima de tudo um animador cultural, como o define a irmã Fernanda. Estava sempre arquitetando algo, influenciando aqui e ali todo e qualquer projeto dos amigos. O Mestre foi se formatando, desde a sua interferência na criação da CAL – Casa das Artes de Laranjeiras, hoje a melhor escola de teatro carioca, onde também deu aulas e aplicou workshops, até o seu programa - “Arte com Sérgio Britto” - que apresentava há décadas na TV Brasil. Todos esperamos que eles sejam reprisados, pois fazem parte do acervo cultural do nosso país.
Deixo meu abraço ao sobrinho Paulo Cesar, em nome da família...
e à dedicada Zefa, representando seus muitos admiradores e amigos.