O poeta, escritor, jornalista e talking head da Geração 60’ REYNALDO JARDIM acaba de produzir Sangradas Escrituras, quase 1200 páginas de poemas escritos ao longo de 64 anos de poetagem explicita.
Boa parte do livro é constituída de poemas inéditos, alguns escritos este ano, como uma paráfrase dos Cânticos dos Cânticos de Salomão.
A Geração Editorial lançará breve a obra em 2 volumes: Retaguarda e Revanguarda, com prefácio de Ivo Barroso, crítica e comentários de Léo Gilson Ribeiro, Ferreira Gullar e Helio Pellegrino, entre outros.
É a mais revolucionária obra de poesia contemporânea.
O autor apresenta em avant para o Bunaneiro, o sétimo poema do primeiro volume: “Caótica, a epopéia terminal”.
Em contrapartida, pinçamos pinturas de Salvador Dali (1904-1989) como ilustrações.
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Caótica, a derradeira epopéia
De Reynaldo Jardim
1
Aqui, imerso em fogo de água e
metal; aqui, ensandecendo a
ferrugem do sal; o ar se diz
solvendo no próprio nitrogênio;
um deus regurgitando arte, ofício,
engenho; aqui, onde a carência
agoniza de excesso; aqui se
inaugura o verso do universo.
2
Já bastara sentir o pulso em
descompasso; o pâncreas solvendo
lixívia sobre o baço; o fígado
gemendo angústia compulsiva; a
medula dos ossos em aço enrijecida; o
fêmur amolecendo o cálcio de sua
fibra; já bastara supor vencida a validade
do tempo de existir qualquer fertilidade.
3
Eis que despenca no horizonte
o sol trincado; em penca todo fruto
apodrecendo a polpa; a grama
amarelando o verde da alcatifa;
o vendaval de estrelas nenhuma
estrela poupa; derrete-se em sorvete o
topo da montanha; corrompe-se a
medular entranha do granito.
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4
Engravidando a terra, a curva do infinito;
o mar erotizando opulência e pasmo;
fervilha sob ondas a fúria do espasmo;
o canto de Iemanjá resulta em sortilégio;
a noite deixa o dia sem cura e remédio;
da lua nem sinal no céu tão malsinado;
o Tao é mausoléu no espaço introvertido:
o espaço se conturba, de dores contorcido.
5
A abelha chora a dor do tempo
trucidado; raspa, em brasa candente, o
ventre do batráquio; o salto do
leopardo estanca em pleno vôo; a
asa da gaivota depena-se no ar; o
felino evapora quando ia saltar; a
bailarina chora a impossível dança;
finda-se em descompasso o som-desesperança.
6
Sangram leite das mamas, vacas emplumadas;
o pasto esturricado em cinza se escama;
carnes se corrompem no cheiro azedo e
acre; revoada de urubus teria seu
repasto; na carniça o veneno
da morte os aguarda; sucumbem os
comensais à primeira fisgada; sem
saber que o destino tramou a armadilha,
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uma hiena faminta convoca a matilha;
no ar se esgarceia a pele do ozônio;
queimaram-se, nos anjos, fusíveis e neurônios;
sereias e duendes estertoram-se em
massa, sem ter quem agradeça sonho e
fantasia; sem extrema-unção, na unção da
agonia; sem bálsamo de alívio, pompa e lenitivo;
sem pombas layoutando nova assimetria.
8
O intestino do sol geme claras
e gemas; cristais perdem a volúpia
de bêbados fonemas; na argila
rochosa, nenhum estratagema:
o mercúrio se aquece e logo
cristaliza; o alquimista insano
mergulha em pesadelos, ao perceber
que em chumbo anoiteceu o ouro;
9
O sujo caramujo perde viscosidade,
razão de tanto brilho, paixão de seu orgulho;
a lesma pasmacenta pasma agoniada,
revolvendo a lixeira, submersa no entulho;
cavernas desabam feridas de erosão;
áspides suicidas ingerem formicida;
morrem de congestão os bichos das goiabas;
até as colibris se tornam depravadas.
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10
O Nilo areniza o leite de seu leito;
o Negro pulveriza lendas e segredos;
o Velho Chico assume a derrota senil;
o Tietê moribundo é um riacho de medo;
a bandeira estremece, não há mais Brasil;
Portugal e Espanha sumiram do mapa;
Piauí e Alemanha, áridas sucatas.
A Europa lamaçal, paraíso de larvas.
11
Não é apenas o estrondo fúnebre do parto
de bombas, a estraçalhar a carne do
oceano; nem tampouco o furor de fúria do
rochedo, sobre o planalto de febre e desencanto;
nem seria a combustão de estrelas frágeis
chocando-se perdidas no universo flácido;
ou o espaço sem vento, esmagando o tempo;
o tempo dissolvendo o arco do compasso.
12
Sem lastimação, lamúria ou liturgia,
não há carpideiras pranteando o agora,
reinventando a aurora, anunciando o dia;
não há quem doutrine nova teologia;
o epílogo do tempo implantou sua crava
a máquina do sêmen perdeu graça e graxa;
não há mais silogismo, pudor, escolástica;
ninguém articula a última palavra.
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13
Nada rasteja, nada revoa: no ar;
nada repulsa, nada pulsa: no mar;
nada reclama, tombada luz: solar;
nada inflama, gélido gás: polar;
nada conturba, a turba torpe: letal;
nada contrai, é o horror: crepuscular;
nada flutua a funda dor: é terminal;
nada do nada, nada é: ponto fatal.
14
A fadiga do horror destrava a curva da adaga;
derrete-se no aço a textura do osso:
neurônios decepados a memória apagam;
o estado do silício é silêncio gasoso;
lépido flagelo flagela outros flagelos,
destrói o contexto, fracciona e emperra;
em verso a cesura fratura, no poema,
o transcurso tragicômico do esperma.
15
Ninguém vislumbra uma pausa silenciante;
o histérico estrondar da catedral ruindo
barra tanto seus berros que se torna extinta
a flueza do vento transudando linfa;
em tudo uma fuligem cinza incandescente;
grilos a ressoar silvo intermitentemente
a pandemia grassa, dolorido insight,
Bill Gates se implode em n nanobites.
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16
O nada absoluto instala a prepotência;
excomunga do verbo os modos temporais;
interrompe-se o movimento de ascendência;
os advérbios são manchetes siderais;
pois que o futuro é esperança irrelevante,
não há filosofia, mística esotérica,
piedade, ternura, medo, compaixão,
nem a lendária espera da ressurreição.
17
Antes mesmo que do psicosmo despencasse
incauto meteoro de labareda aflita,
a Antártica a inocência conspurcara
estraçalhando o testemunho de seus vidros;
já a Terra inclinara o desleixado eixo:
já se apodreciam, das focas, os ovários;
não pulsava, ao norte, a síndrome da morte;
nem latejava fria a síndrome devida.
Todavia
caverna de útero abissal
- blindada por cristais de aço-madrepérola -
abriga algo
?alga
?gene
?pólen
vírus?
a energia seminal
alma primordial
e o algo resiste
insiste, persistente,
dá graças a Deus
pelo esplendor da Vida
faz o sinal da cruz
- unhappy end –
agoniza e
expira
r.jardim / 21.05.2009
Foto 1: Zeka Araujo
Ilustrações : Salvador Dali (1904-1989)
Oi, Buca! FLORES no inverno,só no Bucaneiro! Que antidepressivo fantástico!!Da lógica a filosófica frase (TUDO É NADA E NADA É TUDO),ele faz essas transposições com muita coerência e sabedoria.São todas como cinema de arte,a cada leitura novas equações poeticas.BRILHANTÍIIISSIMO! NATAL LUIZ.
ResponderExcluirAff!oxigênio por favor!
ResponderExcluirEle é o próprio oxigênio,um dos poucos Poetas em maiusculo que ainda temos a nossa volta, é brilhante mesmo! Porque não editam de novo o livro que fez para Maria bethania ? Já tive mas me roubaram.
ResponderExcluirMARIA HELENA SPOLIDORO