sábado, 5 de fevereiro de 2011

A PARTIDA DE REYNALDO JARDIM




Perdeu-perdeu, perdemos todos! Menos vida inteligente na atmosfera com a partida do poeta Reynaldo Jardim na última terça feira. Órfãos, viúvos e carentes, nos contentamos com lembranças de sua dignidade, doçura e sabedoria.

Passa um filminho, e eu me vejo aos 18 anos na TV Continental, estimulado por ele a se integrar aos quase 100 universitários que ele liderava. Sol. Ele era o astro rei que nos iluminou e formou. Poder jovem da cabeça aos pés, nos encorajou naquele 1968 de mudanças e embates.

Quando eu e Catito (Theresa Jorge) denunciamos no ar que um diretor da emissora comprou dois cavalos, enquanto os funcionários não recebiam seus salários, recebemos o bilhete azul: o programa acabou. Bronca de Ana Arruda e clima sinistro de culpa.
Quando Reynaldo chegou de viagem, olhou e disse: “Fizeram muito bem.”

Quantas histórias cada um de seus pupilos viveram com ele!

De seu penúltimo livro “Lagartixa escorregante na parede de domingo”(2005, Editora Folha Dirigida) que Adolfo Martins lhe presenteou, vamos saborear a leveza e o bom humor infinito do Mestre, onde ele narra encontro com seu amigo e velho companheiro Ferreira Gullar.

UM ENCONTRO SINGULLAR
de Reynaldo Jardim

Na Livraria Travessa,
dei de cara com o Gullar:
- Vamos tomar um sorvete,
faço questão de pagar.
- Prefiro café com leite,
acabei de acordar,
pão quentinho com manteiga,
me desculpa a rima em ar.
- Rima pobre fica rica,
se o poeta é um Gullar.
E a poesia como vai ?
- Ela não vai, ela vem.
É só ficar de tocaia,
para não perder o trem.
Se ela dobrar a esquina,
eu dobro a esquina também.
Pego a bicha no cangote,
ponho no triturador,
dou um amasso ela geme,
ou de prazer ou de dor.

Se não geme jogo fora,
mas se geme é gema fina,
faço um poema de pedra
ou de fruta tangerina.
Faço um poema sujo,
ou um poema menina.
Já fiz poema concreto,
um livro só de formiga.
Fiz soneto, fiz cordel,
fui um poeta de briga.
Já fiz poema – Tereza,
(que saudade, doce amiga)
já tive muita alegria,
e tristeza nesta vida.
Escrever é meu destino,
poetar é minha sina.
- Vamos tomar um café,
no boteco da esquina.
De onde se avista o mar,
o mar azul, barco azul.
Que o ar azul ilumina.


Mais Reynaldo Jardim no Bucaneiro : Postagens antigas
Cafofo da Poesia 1 - “A Noite” – Janeiro 2009
“Caótica, a epopéia terminal” (de “Sangradas Escrituras”) Julho de 2009


Foto: Acervo João Rodolfo do Prado, enviada por Vera Sastre

2 comentários:

  1. Acabo de ler o que o Ziraldo falou sobre Reynaldo Jardim no JB virtual e fiquei encantada com vontade de conhecer mais sobre ele. Estudo jornalismo, já falaram sobre ele mas não tinha informção maior sobre a importancia dele.
    Solange Antunes

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  2. Querido LS,

    Como poderia deixar de comentar um post tão querido por vários motivos. Reynaldo, o programa mais jovem da TV, a gênese da nossa dupla dinâmica e o texto que virou nosso tema: comigo a anatomia se vê louca, sou toda coração? Beijos saudosos um mês e meio atrasados mas forever Catito

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