Tem mais de cem anos que Sigmund Freud (1856-1939) inventou
a Psicanálise. A investigação de processos mentais mudou o comportamento do mundo através do
procedimento analítico entre o analista e o analisado. Numa postura relaxada, o
analisado é solicitado a dizer tudo o que lhe vem à mente – método de
associação livre – suas aspirações, angústias, sonhos e fantasias, assim como
experiências vividas. O analista tenta, escutando o analisado, manter uma
atitude de neutralidade, o não-julgamento.
Aprendemos a conviver com termos tipo: transferência,
instinto, desejos inconscientes, divisão, neuroses, idealização, narcisismo,
traumas, frustração, culpa, complexo, compensação, pulsão e outros mais. Tudo isso é
avivado num quebra-cabeça de conteúdo saboroso para o psicanalista. A mente
humana é um parque de diversões. Diversões é maneira de dizer, pois dói pra
caramba...

Lembro dos meus três anos de análise e outros mais de tentativas, uma delas, frustrada, com
um psicanalista especializado em adolescentes que era considerado um dos
maiores da época. Depois de alguns meses de lua-de-mel, chegamos a um ponto
intransponível no tratamento. Descobri que ele era radical e perigoso. Vazei.
Depois de outras incertas, encontrei aquele que me deu rumo e toques
fundamentais: dr Jacob Fuks. A ele, agradeço de coração o que pude detectar e
melhorar naqueles vinte e muitos anos...Um dia, ele me disse mais ou menos
isso: “você já reparou que tudo o que acontece de importante na sua vida tem a
ver com o ato de escrever?” Caiu uma ficha aí determinante para minha vida
profissional.

A Psicanálise me ajudou muuito, principalmente em questões da
minha valorização - que eu não soube
sedimentar – e na relação familiar, especialmente com meu pai. Eu me dei alta
por que vi que aquele mergulho era infinito, dava dízima...Eu que me virasse na
vida prática, pois já tinha recebido a régua e o compasso. Fuks concordou,
mesmo transparecendo certa contrariedade em minha decisão.
Dos conceitos freudianos, alguns se eternizaram para mim: a
pulsão do ego é uma delas, especialmente por que estava me introduzindo no meio
do teatro onde a fronteira da vaidade é sem limites. Acredito que aprendi a
dominar o ego; o inconsciente e seus mistérios foi também uma revelação
fundamental: a consciência é somente a ponta do iceberg... Em nós não é só a
razão que domina. Outra: não somos donos de nós próprios: conhece-te a ti mesmo é lema da teoria psicanalítica que governa o
homem ontem, hoje e sempre.
A contemporaneidade da Psicanálise é atestada ao assistir um
espetáculo teatral como “Freud a Última Sessão” em cartaz até o dia 30 no
Teatro Clara Nunes. Ela está viva em pleno século 21. A platéia é envolvida
numa autêntica sessão de grupo ao testemunhar o embate entre doutor Freud, um
ateu ferrenho, e C.S.Lews (1898-1963), escritor renomado, então estudante de
Oxford, e cristão fervoroso.
A emocionante montagem assinada por Ticiana Studart faz a
platéia refletir o tempo todo. E, mesmo com marketing rotulado de comédia, a
brilhante peça do autor americano Mark St Germain bota o público para pensar,
acompanhando atentamente os temas debatidos: a religião, o sexo, a sociedade
humana e a própria psicanálise. O humor sarcástico ensaia breve reação crítica
no espectador, mas passa ao largo do gênero comédia.
Hélio Ribeiro interpreta
Freud em composição apurada, convencendo a platéia tratar-se de um octagenário transtornado com
o cancro de palato que é acometido. Um trabalho de ator primoroso em seus
mínimos detalhes, digno de premio. Leonardo Netto é tão elegante quanto verdadeiro na pele do escritor
irlandês.
E a precisa tradução de L.G.Bayão emoldura o belo cenário
realista de José Dias, formando uma equipe de frente inspirada. Na retaguarda
da cuidada produção, a tarimbada Melise Maia, a frente da Rímel Produções,
assegura um acabamento primoroso ao espetáculo.
O BUCANEIRO recomenda com entusiasmo, lembrando que só até o
dia 30 "Freud a Última Sessão" estará em cartaz no Shopping da Gávea. Imperdível. Em seguida a produção
ganha a estrada e começa por São Paulo uma turnê que promete atravessar o país.
É teatro de verdade. Freud live!